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Karol Conká redação

Redação Enem: 6 formas de usar Karol Conká em seus argumentos

Caetano Mondadori
Caetano Mondadori

A redação do Enem precisa bem mais do que apenas um monte de frases, não é mesmo? Afinal, não basta a gente falar um monte de coisas interessantes sobre o tema. A gente precisa saber relacionar esse tema que aparece com algum conteúdo externo que a gente tenha visto.


É por isso que sugerimos que você assista ao documentário A vida depois do tombo, série documental lançada pela GloboPlay, que aborda uma sequência de entrevistas com a cantora Karol Conká, na tentativa de mostrar uma análise das inúmeras consequências emocionais decorridas após a participação da artista no reality show Big Brother Brasil.


Abaixo, deixamos o breve trailer da série para que você possa ter uma ideia de como os episódios funcionam:

Bem, a maioria de nós, brasileiros, sabe quem é Karol Conká, sabe o que ela fez e sabe o tipo de sentimento que grande parte da sociedade brasileira tem por ela depois de sua participação no reality show de maior audiência do país. A verdade é que todos esses sentimentos muito intensos e violentos que grande parte de nós tem por Karol, hoje, podem ser resumidos em uma única palavra: contradição.


É a contradição entre quem Karol era, ou quem ela afirmava ser para o público, e aquilo que ela mostrou sobre si mesma em um programa de televisão, que faz com que grande parte das pessoas tenha se sentido extremamente desconfortável com sua figura em um reality show. É por isso que acho esse tema tão relevante para qualquer abordagem em aula de redação. Ao falar de Karol, ajudamos nossos alunos a falar de um tema muito humano e urgente.

A contradição, afinal, é uma condição humana, e não devemos condenar quem quer que seja por afirmar defender certos valores e, posteriormente, agir contra suas palavras. Afinal, nós mesmos fazemos isso todos os dias.


A vida, em si mesma, é uma grande evolução. A contradição é um problema humano e a coerência é a sua cura. Ao identificarmos as contradições entre aquilo que afirmamos e as nossas ações, podemos buscar aproximar nossos discursos e a nossa prática cotidiana.

Para isso, precisamos argumentar sem nos levar pelo ódio. Precisamos, assim, aprender a falar de Karol, sem odiar Karol. Quem em um mundo em que isso possa ser debatido, a gente possa também argumentar melhor e ter redações que não sejam apenas baseadas em opiniões pessoais.

Ok! Talvez a gente esteja filosófico demais. Porém, para que a gente entenda todo o processo de contradição em que Karol se viu, precisamos entender o que ela afirmava defender, para entender a contradição em que ela mesma se meteu.

Quem é Karol Conka?


Karol Conká é o nome artístico de Karoline dos Santos de Oliveira. A famosa rapper, cantora, compositora, produtora, apresentadora e atriz é apenas o personagem com que Karoline aprendeu a se apresentar para o mundo. É como se Karol Conká fosse a fantasia, enquanto Karoline fosse a realidade. Mas por que alguém precisaria de um personagem para apresentar a si mesma?


Bem, sendo Karoline uma moça preta e pobre de Curitiba, uma cidade do sul do Brasil, e tendo desde cedo que conviver com o racismo estrutural a que foi submetida de forma sistemática, a criação de uma personalidade artística que demonstre autoconfiança poderia ser uma resposta para que ela conseguisse lidar com os outros sem sentir que, de algum modo, ela estaria em situação de vulnerabilidade.


Assim, o próprio nome artístico é uma forma de demonstrar uma situação de domínio. É como se ela, ao criar seu sobrenome Conká, estivesse falando com seu interlocutor algo como:


“Não, por favor, o meu Karoline é com k!”


E foi assim, também por influência de seu pai, que a explicação impositiva se transformou em sua assinatura e o “com k” virou o sobrenome: Conká.

Carreira de Karol

Karol começou cedo a mostrar sua veia a artística. Desde os 13 anos participava de concursos de dança e aos 16, ganhou um concurso de rap em sua escola. Ao perceber essa habilidade, começou a fazer videoclipes e se tornou popular na internet, ainda nos primórdios de um avanço da cultura virtual no Brasil. Com 17 anos ela já tinha uma carreira “bem bonita lá fora” com parceiros no meio musical.


Aos 19 ela se descobriu grávida, continuou a gravidez, foi mãe e se separou do pai de seu filho. Quando a gente para pra refletir sobre isso, podemos pensar, e muito, sobre todo o contexto emocional bem pesado em que a personalidade de Karol foi construída.


O próprio ex-marido de Karol, entrevistado no documentário da globoplay, avalia  isso. Para ele, Karol passou por tantas situações de violências simbólicas e explícitas que é uma pessoa extremamente tensa que, ao menor sinal de hostilidade, aprendeu a atacar antes de se sentir atacada.

Karol Conka redação caetano mondadori
Karol Conká fazendo show quando tinha uma carreira bem bonita lá fora


Quando seu filho já estava um pouco maior, ela deu maior atenção à sua carreira e, então, em 2011 lançou seu primeiro EP, disponibilizando inúmeras canções no MySpace. O nome desse trabalho foi “PROMO”.


Desde esse primeiro trabalho formal, Karol construiu em torno de si uma imagem midiática que alinhava quem ela é com aquilo que defendida no conteúdo de seu trabalho. Assim, a personalidade midiática de Karol Conká sempre esteve atrelada a vários importantes debates sociais.


Ela ficou conhecida nacionalmente como uma mulher preta, consciente de debates fundamentais como racismo, machismo, opressões estéticas e empoderamento feminino. Aqui, vou separar algumas importantes músicas e falas dela que ajudaram a construir sua imagem na mídia brasileira.

Ja que é pra tombar…


A música mais famosa de Karol, quando se fala de ampliação de  visualizações, é Tombei. O vídeo da canção tem 37 milhões de visualizações. Isso é pouco, quando comparado a outros artistas brasileiros, incluindo aqueles ligados a movimentos periféricos como o rap ou o funk.


No entanto, apesar de a imagem de Karol nunca ter sido extremamente conhecida do grande público, podemos perceber que sua influência dentro dos círculos internos da mídia foi significativa. Karol sempre apresentou inúmeros atributos importantes para os veículos de comunicação hegemônicos.


Ela traz para diretores e executivos de grandes canais a imagem perfeita de um produto de mídia. Sua beleza agradável e sua estética confortavelmente rebelde chamam a atenção e, durante algum tempo, seu nome esteve ligado a inúmeros canais de peso, como o GNT, do qual ela, inclusive, é apresentadora. Olhem o clip abaixo:

O que você vê no clipe acima? Uma mulher empoderada, moderna, que não se coloca em um lugar subalterno. Karol é uma mulher que sempre passou uma figura tão forte de autoconfiança que seria difícil alguém afirmar, ao ver um de seus clipes, que essa personagem sofria um nível tão profundo de insegurança que seria capaz de se demonstrar violenta, autocentrada, egoísta e um verdadeiro perigo emocional.


A questão racial, muito debatida em suas entrevistas, parecem absolutamente superadas em seus clipes. É como se em Tombei a gente visse uma mulher preta que está acima de qualquer dificuldade emocional provocada pela imposição do racismo. Embora ela tenha falado constantemente sobre o debate racial em entrevistas, sua obra e a afirmação estética constante de sua negritude sempre demonstraram um sujeito confortável em sua própria identidade.


Em muitos momentos, ao longo dos últimos anos, vi vídeos de Karol Conká em programas como o Saia Justa do GNT, ou mesmo canais de YouTube e, várias vezes, considerei sua opinião sobre a necessidade de empatia ou o combate ao racismo extremamente válida. Aqui, separo dois vídeos que considero particularmente interessantes. O primeiro, é esse vídeo do programa Saia Justa, na GNT, em que ela fala sobre como a vivência de constante bullying racial na infância teve impactos significativos na construção de sua personalidade. Vejam que interessante:

Aqui, ela fala sobre a importância de se livrar de relações tóxicas. O vídeo é sobre assédio no carnaval, mas calma aí que lá em baixo a gente vai falar a respeito desse vídeo. Sim, a gente sabe que você deve estar pensando: “como ela fala “não é não” e depois assedia um participante do BBB?”. Esse é o ponto aqui. A gente quer mostrar o que Karol era, ou mostrava ser, para debatermos toda a complexidade daquilo a que ela se envolveu. Guarda essa referência, Brasil.

Aqui a Karol fala sobre a importância de empatia, principalmente na internet. Bem, nem é preciso dizer que esse trecho do vídeo virou meme absoluto quando a rapper estava dentro do BBB.

Com toda essa imagem construída ao longo de anos de uma obra artística que se misturava com seu personagem midiático, Karol chegou ao BBB 21 como uma das favoritas ao prêmio.

Bonita, estilosa, carismática, conhecida parcialmente do grande público, mas adorada em seu microespaço de atuação, ela entrou na casa do BBB como uma promessa, mas o tombo, como em sua música, foi muito grande.


Para que ninguém aqui seja acusado de ser leviano, vale lembrar alguns episódios do que aconteceu dentro do reality.

Karol no BBB

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Quando Karol entrou na casa e foi recebida pelo participante Gilberto, tudo parecia bem. Ele é um gay nordestino que virou queridinho do público e ela uma rapper negra.


No segundo dia na casa, quando todos os participantes estavam se apresentando, ela ainda disse que não tinha medo do cancelamento, nome usado hoje para o processo de perseguir pessoas nas redes sociais quando alguma conduta pública incomoda os internautas.


Tudo começou a ficar um pouco mais complicado quando todos os participantes começaram a perseguir a participante Juliette. A personalidade da advogada paraibana incomodou a todos os participantes no começo do programa.


Karol, ao comentar sobre o comportamento de Juliette, disse que a advogada era “dessa forma” por causa da cultura do lugar de onde vinha. Para explicar essas diferenças culturais, Karol se apresentou como exemplo ideal e disse que ela vinha de Curitiba, uma cidade mais educada e reservada. Pronto, o caminho estava livre para o ódio.


O comentário inadequado de Karol foi visto como xenofobia. Afinal, não existe explicação lógica para alguém supor que quem mora no sul do Brasil é mais educado do que alguém que mora no nordeste. O nome disso é preconceito e pronto. A partir daí, Karol foi chamada nas redes de “a educada de Curitiba” e o pé de muita gente já estava atrás.


Além desse comentário em particular, Karol fez inúmeras declarações maldosas contra Juliette, sempre diminuindo a moça que, de tão perseguida, acabou se transformando na preferida do público.


Durante todo esse processo, aconteceu o desenrolar de uma série de conflitos com o participante Lucas Penteado. O ator bebeu demais em uma das primeiras festas do programa e importunou todos os participantes.


A forma como ele foi tratado posteriormente a esse episódio levantou inúmeras questões e debates entre os telespectadores. Por conta de seu comportamento inconveniente, Lucas foi hostilizado pela casa, segregado, excluído, mas além da indiferença cruel a que foi submetido, recebeu um tratamento absurdamente violento de Karol.

Quando a violência se mostrou

Karol Conká redação violência
Karol Conká quando estava no BBB


Karol xingou Lucas de formas inimagináveis, ainda mais no que se trata a um programa de televisão aberto ao público. Em uma das cenas mais cruéis do programa, ela exigiu que ele saísse da mesa para que ela pudesse comer e falou que ele só poderia se sentar quando ela terminasse.


Aquilo que já era um hostilidade absurda, se transformou em uma expressiva tortura psicológica. Aqui vale lembrar que também causou o espanto nas redes o fato de Lucas ser um menino preto e que muitos ficaram chocados por Karol não conseguir expressar algum tipo de empatia por ele, ao menos na tentativa de promover um espaço de acolhimento entre os dois.


Quando Lucas, absolutamente marginalizado pela casa, acabou beijando Gilberto e se declarando bissexual, a maioria dos participantes acabou ficando contra os dois. Na interpretação de muitos ali, os dois se beijaram para chamar a atenção do público.


Eles foram humilhados, tiveram seu afeto deslegitimado e, quando confrontados, iniciou-se uma série de brigas nas quais Lucas penteado foi novamente rebaixado. Assim, perseguido e humilhado, Lucas decidiu sair do BBB, desistindo do programa.

Ovacionado pelo país quando tomou a decisão de desistir, Lucas chegou do lado de fora, descobrindo que se tivesse aguentado tudo aquilo, provavelmente seria o campeão. Mas quem aguentaria tudo aquilo?


Do lado de dentro, Karol continuou sua trajetória. Não tendo mais Lucas como alvo, atacou a todos. A postura de Karol dentro da casa gerou inúmeros desconfortos, ódio, ressentimento, e acendeu questões raciais que nunca foram de fato adormecidas no Brasil. Afinal, em um país racista como o nosso, parece sempre mais fácil perseguir alguém preto.

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No entanto, o comportamento de Karol no BBB vai além de qualquer questão racial. Inúmeros momentos do programa mostram Karol falando coisas contraditórias para pessoas diferentes de maneira a jogar uns contra os outros e, quando descoberta e confrontada, ela disse várias vezes estar indignada com os ataques e perseguições que sofria. Falava ainda que não dava conta de viver no BBB porque não estava acostumada com tanta falsidade – sendo ela, constantemente, falsa com todos à sua volta.


Karol manipulou o participante Bill, o assediou, forçou um momento amoroso com ele sem que ele quisesse, levantando a importante questão de que homens também podem sofrer abuso.
Ela manipulou e mentiu sobre falas de quase todos os participantes e demonstrou muita crueldade verbal. Psicólogos e psiquiatras de plantão, de verdade ou só doutores de twitter, foram às redes fazer laudos médicos de seu comportamento. Psicopata, narcisista, egoísta, louca.


Em algumas semanas, Karol já era tão ou mais odiada que o presidente da república e, para alívio gerou da nação, foi eliminada no dia 23/02, com 99,17% dos votos. Teve a maior rejeição da história do reality no mundo. Ninguém nunca foi tão odiado em um programa como esse no planeta terra.

Enquanto Karol saía do programa, a justiça foi feita, o público soltou fogos, o coronavírus parou, a pandemia teve fim, Bolsonaro aprendeu a governar e o mundo se transformou em um lugar correto. Por um instante, o público recorde teve a sensação de que a gente vivia a paz de uma daquelas imagens do paraíso das revistas teológicas das testemunhas de Jeová. Tigres, afinal, andavam em paz em meio a crianças de todas as etnias.

paraíso
O Brasil, no dia posterior ao que Karol foi eliminada do BBB, parecia a metáfora do paraíso descrito nas revistas dos Testumunhas de Jeová. Com a eliminação de Conká, a justiça havia chegado à Terra.

O público teve seu momento de glória. A justiça foi feita. Já que era pra tombar, Karol tombou. Mas e agora? O que seria feio de Karol depois do tombo?


Em primeira lugar, eu queria deixar claro que toda essa introdução imensa que já é maior que a maioria dos meus artigos aqui, não é uma tentativa de “passar pano” para Karol.


A minha tentativa aqui é outra. Quando olhamos alguém em um processo de mídia, seja essa pessoa quem for, existe uma narrativa anterior ao que estamos vendo.


No interior, quando queremos dizer se a gente confia ou não em alguém, costumamos dizer: “fulano é uma boa pessoa, mas eu não compraria um carro usado dele.” Essa frase muito divertida, indica que, apesar de gostarmos de alguém, a gente não confia plenamente na honestidade do indivíduo.


Bem, quero deixar bem claro que eu não compraria um carro usado de Karol Conká, mas a minha intenção, enquanto professor de redação, sempre é mostrar a análise mais ampla possível sobre um quadro, para que meus alunos consigam perceber o óbvio: qualquer simplificação tende a ser ignorante, qualquer reducionismo tende a ser cruel.


Gostemos ou não de Karol, ela é um ser humano com sua trajetória, com sua família, com suas responsabilidades, contas a pagar e um filho para manter.


Não gosto nem um pouco das atitudes de Karol no BBB. Particularmente, quando tudo estava acontecendo e só se falava de Karol, fiquei emocionalmente abalado porque já tive relações de trabalho muito difíceis com pessoas semelhantes a Karol.

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Pessoas carismáticas, que parecem bondosas, mas que o tempo todo estão fazendo coisas cruéis, jogando uns contra os outros e, posteriormente, fazem a gente se sentir culpado. Eu já me senti muito culpado por ter relações profissionais com pessoas que, apesar de todo o cuidado, sempre se sentiam atacadas.

Já me relacionei com pessoas que não entregavam demandas no dia e, mesmo assim, faziam eu me sentir culpado por não ter avisado. Como eu pude ser tão injusto? Esse tipo de pessoa pode nos confundir, pode nos afetar, pode distorcer a nossa visão sobre nós mesmos.


No caso de Karol e também no caso das relações que tive, ficou essa impressão sobre como a ausência de conhecimento emocional desses indivíduos pode fazer todos em volta serem afetados.


É isso que eu vejo em Karol: uma pessoa emocionalmente perigosa, potencialmente agressiva, mas não tenho raiva dela. Quando eu vejo a imagem do documentário da Globoplay com pessoas soltando fogos por causa de sua eliminação, eu não me sinto bem.


Afinal, o ódio à Karol não resolve os problemas de Karol e não resolve os problemas do mundo. Pessoas como Karol vão continuar existindo. Para mim, a mídia, enquanto elemento social, deveria usar desses episódios de entretenimento para lançar discussões importantes.


Não vejo problema algum em programas como o BBB, mas vejo muitos problemas naquilo que fazemos a partir de programas como o BBB. Na minha visão, mesmo o entretenimento poderia ser usado como uma ferramenta de reflexão. O que fazemos a partir disso que foi feito? É aqui que começar a mudança.


A série documental da Globoplay lança alguns questionamentos importantes e eu separei alguns que a gente poderia usar na redação.

Purgatório de Dante bem na sua redação

Dante redação purgatório caetano mondadori
Pintura retrata o autor Dante, de A Divina comédia, com representação da sua imagem para os níveis do inferno cristão

É impossível não ver a série da Globo e não fazer um paralelo com A Divina Comédia, de Dante. Quando o livro de Alighiere foi escrito, o conceito de purgatório era um dogma recente no cristianismo católico. Em sua obra, Dante descreve o mundo espiritual, explicando ao leitor como se dividiam os espaços do inferno, por exemplo.


Em seu texto, o autor apresenta o purgatório como um espaço intermediário. No purgatório cristão, ficam as almas que, apesar de terem pecado, se arrependeram de seus atos. O purgatório é uma grande montanha em que as almas arrependidas esperam a purificação e o perdão de seus pecados, enquanto assistem aos castigos das almas pecadoras no fundo do vale do inferno.


É nesse espaço muito semelhante que a série A Vida Depois do Tombo é construída. Karol Conká é apresentada sozinha em uma sala com inúmeras telas gigantes que a cercam, em que ela é entrevistada por perguntas sem que alguém converse com ela. À sua frente está uma cadeira vazia, que poderia ter sido tirada do cenário, mas que é mantida ali como um símbolo de todos que se negam a estar em sua presença.


Nesse espaço vazio, Karol é confrontada com suas próprias atitudes e levada a falar sobre aquilo que fez. É impossível não olhar a cena e também não fazer um paralelo com a recorrente imagem do imaginário popular que sempre reafirma que no juízo final seremos levados a ver um filme da nossa vida em um grande telão.


Olhando por essa perspectiva, A vida depois do tombo é uma representação da nossa vivência social de extremo julgamento na atualidade. Seria possível dizer, em muitas redações, que a marginalização de indivíduos por meio do cancelamento virtual faz com que esses sujeitos vivam em um espaço semelhante ao purgatório de Dante, no qual as pessoas ficam sozinhas, sendo oprimidas pela imposição violenta de suas próprias atitudes.

2. Sociedade do espetáculo na sua redação

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A sociedade do espetáculo, do filósofo Guy Debord, é um ensaio essencial para quem quer compreender a sociedade ocidental na segunda metade do século XX. Em seu texto de 1967, Debord denuncia a construção das relações sociais mediada pela dinâmica das imagens, já confirmando a influência tóxica da cultura televisiva de massa na forma como os elementos de comunicação seriam responsáveis por construir a perspectiva do indivíduo contemporâneo na realidade atual.


A crítica de Debord é feita, sobretudo, à maneira como a imagem, ou a imagética, atua como um elemento de construção dos valores socialmente compartilhados das sociedade capitalistas. Para ele, a imagem é um elemento de imposição de valores e atua, ao mesmo tempo, como uma ferramenta que impede a análise crítica dos discursos.


Indo além da análise de Debord, podemos verificar a ampliação desse processo na sociedade que se alicerça nas redes sociais contemporâneas em que o próprio indivíduo se torna um produto de si mesmo. Tudo é imagem e, assim, tudo se torna vazio.

Quando olhamos, por exemplo, toda a trajetória de Karol Conká, podemos fazer um paralelo à forma como a imagem plástica dela sempre foi de transgressão a uma postura conservadora, ao mesmo tempo em que a conduta enquanto indivíduo revela exatamente o reforço de um processo de poder e violência.


Assim, a sociedade em que tudo é um espetáculo estético, se torna refém de discursos pautados apenas na superficialidade de seus quadros e composições que, no entanto, não superariam uma análise mais criteriosa da realidade.

Tanto o texto de Debord quando a contradição entre a imagem de Karol Conká em relação a violência de sua conduta poderiam ser usados como repertório em redação que falem de conflitos em redes sociais, do afastamento das relações provocado pelo espaço virtual, ou mesmo sobre a violência virtual na internet.

3. Ativismo virtual na sua redação

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Outro ponto levantado após a participação de Karol Conká no BBB foi toda a questão que envolve o ativismo virtual. O Brasil, como se sabe, é um país cada vez mais polarizado do ponto de vista político. Documentários como O Dilema das redes, da Netflix, nos ajudam a compreender como as redes sociais contribuíram para o aceleramento desse tipo de conflito no mundo como um todo, mas no Brasil em particular.


Em nosso país, a figura de Karol Conká – assim como de pessoas de postura visivelmente progressista – esteve atrelada a uma leitura de que ela faria parte dos círculos políticos da esquerda. Embora eu não tenha visto declarações dela a respeito de possíveis legendas partidárias que ela defenda, no próprio programa ela falou mal de Bolsonaro, sem citar seu nome, já que as regras do programa pedem que os participantes evitem debates desse tipo com a inclusão de nomes de políticos do espaço externo.


Porém, mesmo que Karol não tenha votado em Lula e tatuado uma estrela vermelha, sua imagem e as pautas que ela defende estão historicamente atreladas a discursos da esquerda e, assim, quando ela começou a mostrar comportamentos violentos e absurdamente criminosos, principalmente em relação ao participante Lucas, todo o processo se tornou um prato cheio para que grande parte de pessoas antipáticas aos discursos de esquerda usassem Karol como exemplo.


Para muitos, a hipocrisia do comportamento de Karol serviu como uma prova irrefutável da hipocrisia de todas as pessoas de esquerda, mas também foi uma ferramenta útil para definir e invalidar aquilo que se chama, popularmente, de ativismo de sofá. O ativismo de sofá é como se convencionou a chamar a prática da pessoa que defende pautas no espaço virtual, mas não atua, efetivamente, em uma mudança sistemática das relações sociais.


O “ativista de sofá” faz publicações, critica posturas, reclama do conservadorismo, denuncia o machismo instaurado, mas, como o nome indica, não sai de seu sofá. Assim, quando Karol mostrou o pior lado de si mesma, parte do público brasileiro entendeu que a contradição entre seus discursos e suas práticas se dava por conta de ela ser uma pessoa de discurso vazio.


Na compreensão desse público, pessoas como Karol se apropriam de pautas sérias apenas para chamar atenção para si mesmas. Usam desses discursos e debates para construir uma identidade, constroem uma autoridade social em torno de si, mas não sustentam essa prática no cotidiano.


Em redações em que fossemos convidados a falar sobre o ativismo virtual, poderíamos falar a respeito dessa apropriação. O ideal seria, em um projeto de texto, defendermos a importância do ativismo, seja ele em qualquer esfera. No entanto, poderíamos fazer um parágrafo sobre como o ativismo pode sofrer uma apropriação. O que isso significa? Significa que algumas pessoas podem se apropriar do ativismo para criar uma imagem em torno de si.


Algo semelhante acontece quando alguém rico ou famoso faz ações de caridade para atrair atenção da mídia sobre si mesmo. Assim, a caridade não é genuína, mas apenas um recurso para falar de si mesmo. O mesmo ocorre em relação ativismo virtual. Tanto a postura de Karol quanto a própria questão da apropriação são excelentes argumentos para colocar em uma redação que envolva essas questões.

4. Violência da mídia na sua redação

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Eu quase não falo disso publicamente, mas acabo abordando essa questão em sala de aula. Alunos costumam achar estranho quando compartilho essa informação. O fato é que evito ao máximo ver cenas de violência. Eu não me sinto nem um pouco confortável com elas.


Sim, eu gosto muito de cinema e muitos filmes podem ter cenas excessivamente violentas. Só assisto a filmes que tenham cenas assim quando são obras em que a violência é debatida como um fator da narrativa, mas realmente não vejo nada que tenha a violência como fator banalizado. Um filme que tenha uma luta apenas para mostrar duas pessoas se batendo? Não mesmo.


No entanto, posso dizer que eu tenho ainda mais restrições sobre violência e sobre a exposição da violência em veículos de mídia. Na nossa cultura, as pessoas tendem a reduzir a violência apenas ao conceito de agressão física. No entanto, há inúmeras formas de violência.


Em meus cursos de redação, tenho aulas que debatem a amplitude do próprio conceito de violência. Em uma das aulas do meu curso ARGUMENTO PRA TUDO, debato o conceito de violência simbólica cunhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu. Quando entendemos o conceito de Bourdieu para a violência e entendemos de forma mais madura o processo de opressão, parece que tudo se torna mais agressivo para nós.

Pierre Bourdieu redação violência simbólica caetano mondadori
O sociólogo Pierre Bourdieu, responsável pela criação do conceito de violência simbólica


Não é que ao ler Bourdieu a gente fique mais sensível, mas provavelmente ficamos mais alertas. Afinal, percebemos que a violência está presente em várias situações do cotidiano.

A própria filósofa Marilena Chauí, ela mesma orientada de Bourdieu, certa vez construiu uma definição de violência que, de tanto ser usada em minhas aulas, acabou se tornando uma piada interna entre os alunos do meu curso. Chauí disse:


“A violência é toda violação, física ou psíquica que se faz contra a natureza de alguém.”

Marilena Chauí, filósofa


Essa frase, que merece uma reflexão intensa, poderia mudar muitas práticas sociais, mas também é uma contribuição imensa para qualquer redação que fale de violência. E qual tema de redação não fala de violência? Em última instância, todos os temas estão nos falando sobre essa postura de violação do outro.


Além do próprio conceito de violência e do entendimento de que a violência é um comportamento mais amplo do que pensamos a princípio, podemos refletir sobre qual a responsabilidade da mídia ao expor a violência ao público.


Particularmente, quando eu assisti às cenas em que Karol Conká humilhava Lucas Penteado, pensei muito sobre o quanto a exposição daquele tipo de cena seria nociva para a sociedade.
Ao mesmo tempo que grande parcela das pessoas se mostrava indignada com Karol, essas pessoas expressavam essa indignação com a mesma violência que criticavam na rapper.

Preocupa que todo esse processo, equivocadamente apresentado como entretenimento, venha ao grande público sem uma mediação, ou seja, sem a presença de alguém que diga ao expectador de que esse tal atitude passou dos limites.


Para mim, que assisti a alguns desses momentos, me veio a sensação de que a rede Globo seria a grande responsável pelo processo. Mesmo que a gente diga que Karol Conká seja uma psicopata ou narcisista, independente dos laudos dos psicólogos de plantão, a Rede Globo teria o poder de não apresentar aquele conteúdo.


Karol xingou sistematicamente um homem em uma casa, humilhou, excluiu e rebaixou, além de inúmeros outros comportamentos e, como consequência de seus atos, ela foi rejeitada pelo público. Não há, na microssociedade exposta dentro do programa, uma autoridade qualquer.

O Big Brother, desse modo, se transforma em um símbolo de uma sociedade anárquica, em que não existe Estado para mediar as condutas, na qual os indivíduos atacam criminosamente uns aos outros sem serem efetivamente punidos.


O processo de exposição inadequado da violência pela mídia, juntamente com a ausência de uma postura social que responsabilize a mídia por essa conduta, pode ser usado por nós em inúmeros temas de redação. Afinal, a grande maioria dos temas envolve uma postura social na qual a mídia não é responsabilizada.


A sociedade teve que ver um homem ser perseguido e humilhado, aguentar uma mulher com graves problemas emocionais manipular mais de dez pessoas e ser levada a um ódio irracional para que um programa tivesse audiência.

Terminado o processo, todos estão ainda mais inseridos dentro de uma cultura de naturalização da violência, a vilã do reality tem sua carreira destruída por si mesma, o canal teve lucro e ninguém compreende a gravidade do que o veículo de manipulação fez. Se isso não puder ser usado como argumento, nada mais pode.

5. Cultura do cancelamento na sua redação

redação caetano mondadori como usar Karol conká enem

De todos os temas que se relacionam à questão de Karol Conká, podemos enfatizar que aquele que mais diretamente está ligado a todo esse processo, definitivamente é a questão da cultura do cancelamento.


Esse termo, incialmente em inglês, foi eleito pelo dicionário Macquarie como a expressão mais relevante de 2019. A expressão em si é uma roupagem para o comportamento coletivo de boicote e linchamento virtual a alguma figura pública que tenha se expressado ou comportado de forma considerada inadequada.


O entendimento da cultura de cancelamento é fundamental para compreendermos a sociedade de hoje. Afinal, era de se esperar que a grande conexão global provocada pela internet fizesse com que as pessoas tivessem maior condição de ampliar sua conduta ética e promover formas de expressão mais saudáveis e civilizadas.


No entanto, o que se tem visto no espaço público, principalmente no espaço virtual compartilhado, é uma avanço de uma violência irracional. A civilização ocidental passou por inúmeros processos até que pudéssemos compreender a necessidade de construção de uma segurança coletiva, na qual o Estado monopoliza o julgamento para que a barbárie dos indivíduos não faça com que todos estejam vulneráveis à violência uns dos outros.


Porém, dentro do espaço virtual de hoje, não há espaço para a ponderação. Indivíduos julgam, condenam e executam moralmente quem quer que seja e, muitas vezes, expressam mais violência do que aqueles a quem condenam.


Como disse nesse artigo, não pretendo defender Karol Conká, de quem eu definitivamente não compraria um carro usado. Porém, também não quero defender uma perspectiva de vivência social na qual seja naturalizada uma relação tão opressiva. Inúmeras posturas de Karol são absolutamente condenáveis.

Mas igualmente condenáveis são as afirmações racistas feitas por aqueles que, sob a justificativa de discordar da cantora, apenas expressam seu preconceito racial. Nenhuma atitude de quem quer que seja pode ser usada como justificativa para o racismo, o machismo ou mesmo a violência.


Caso fôssemos usar a cultura do cancelamento como uma ideia em nossas redações, poderíamos falar, por exemplo, de como a velocidade da informação no espaço virtual, impede a reflexão e a ponderação no processo de comunicação.

Assim, em uma sociedade de alta velocidade na comunicação, não há tempo para pensar. Sem tempo, o que resta ao ser humano é a impulsividade de seus instintos. Não há ponderação ou civilidade, mas apenas violência e agressão.

6. Exploração de imagem na sua redação

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Não vejo em Karol uma moça inocente. Ela definitivamente não é uma jovem camponesa de nobre coração que vai todos os dias ao bosque procurar lenha. Esse texto não se trata de uma defesa sobre Karol e sua suposta dignidade.


No entanto, esse talvez seja um texto sobre dignidade em si. Karol foi, em grande medida, uma vilã na última edição do Big Brother Brasil, mas até mesmo essa ideia de reduzir a complexidade humana de uma pessoa ao conceito de vilania parece um reducionismo barato.


Reduzir pessoas a meros conceitos é algo violento e absurdo. Os conceitos limitam as pessoas e, desse modo, impedem que esses indivíduos deem qualquer passo para além daquilo que impuseram em seus estereótipos.


Karol entrou em um programa, errou feio e merece a discordância do público. No entanto, ao manter essa narrativa em torno dela, vemos outro processo muito profundo acontecendo.


Poderíamos usar o lançamento do documentário como um excelente exemplo em redações para comprovar a maneira como a mídia explora a imagem de pessoas e as transforma em produtos, sem se preocupar com as consequências emocionais na vida dos indivíduos.


Quando a série documental A vida depois do tombo foi lançada, em 29 de abril, meia-noite, em menos de 24 horas o público da Globoplay já havia acumulado 716 mil horas de visualizações do programa. Essa é a maior audiência da Globoplay na história.


A própria GNT, canal por assinatura do grupo Globo, cancelou a exibição de programas gravados apresentados por Karol e, ao mesmo tempo, o canal lucra com um documentário sobre a desgraça que a abateu em sua vida e carreira depois da exposição no reality.


O programa, vendido como a oportunidade de uma explicação em que a cantora pode falar sobre si mesma, não consegue, em meu entendimento, explicar o comportamento inexplicável de Karol, já que suas condutas precisam de terapia e não de mais e mais exposição.

No entanto, está ali o canal de televisão, transformando um ser humano com vários problemas psíquicos e graves distorções em um produto bizarro. O público, por sua vez, não está ali para tentar entender o lado dela ou desenvolver alguma empatia. O público é fascinado por Karol, pelo seu absurdo. Mesmo que o documentário tente, ela não consegue sair do produto de mídia no qual a solidificaram.


Encurralada entre as paredes do cenário, falando de si mesma e tentando pedir desculpas, Karol está ali, sozinha, dando lucro para o conglomerado que a ajudou a destruir a si mesma.
Karol pode ser péssima, mas eu tenho certeza de que certa parte da mídia é bem pior.

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